REMINISCENCIAS2

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

A mansão da praia - final


Minha prima estava decidida a cumprir o que havia prometido. Na manhã seguinte, enquanto nos esbaldávamos com picolé, guaraná e milho verde, ela permaneceu vigilante. Só comeu um espetinho de camarão, porque camarão não tinha entrado na promessa. Meus primos com aquela crueldade própria das crianças ainda espezinhavam. Passavam ao seu lado chupando picolé e ofereciam: “Aceita?” Seus olhos se enchiam de lágrimas, mas ela estava decidida a não quebrar o pacto que havia feito com Deus.
            Já eram umas quatro horas da tarde quando voltamos da praia e fomos almoçar. Quando minha prima fez o seu prato meu tio estranhou:
– Não vai comer arroz?
– Não, pai, eu não quero.
Nós, as outras crianças, começamos a rir e ele desconfiou que havia alguma coisa errada:
– Mas não vai comer arroz por quê?
– Eu não posso, eu fiz uma promessa.
            Antes prosseguir a história, devo lembrar que estávamos na década de 1980, tempo de educadores libertários que rejeitavam o autoritarismo e o conservadorismo político e religioso. Religião, tudo bem, desde que fosse revolucionária e contestadora. Fazer promessa, nem pensar! Isso era barganha com Deus, coisa de gente capitalista e interesseira. Correntes pedagógicas se alastravam ensinando pais e educadores a deixar as crianças pensarem por conta própria e desenvolverem o lado crítico. Desde que fosse para criticar aquilo que eles condenavam, é claro. Acho que foi esse “espírito da época” que pesou sobre meu tio naquele momento e o deixou totalmente alterado:
            – Eu não acredito nisso! Nós estamos no final da década de oitenta e minha filha com essas superstições bestas! – ele berrava.
Minha prima tremia, chorava e implorava para comer só o peixe. Ele não transigia:
            – Quem anda colocando isso em sua cabeça? Vai comer arroz sim!
            – Pai, por favor, eu não posso, eu prometi. – muitos anos depois eu iria concluir que nenhum adulto leva tão a sério suas promessas quanto uma criança.
– Pois eu também vou fazer uma promessa para São José dos Periquitos: se você não comer arroz, ninguém vai para a praia amanhã. E olha que São José dos Periquitos é santo forte!
            Diante de tanta pressão, minha priminha acabou cedendo. Em silêncio, soluçando e com as lágrimas correndo, ela engolia sem mastigar as colheradas do arroz que puseram em seu prato. Engolia junto o medo e a culpa.

***
            No dia seguinte caiu um temporal e ninguém foi para a praia. Ficamos dentro de casa amontoados nos colchões, lendo revistinhas e jogando palavra cruzada. Ninguém tinha ânimo para rir da situação. Só o meu primo que, não querendo perder a piada, abriu a janela do quarto, olhou o temporal e se virou para gente com um riso no canto da boca e os olhos brilhando de deboche:
            – Esse São José dos Periquitos não é forte porra nenhuma!
            As férias estavam acabando. Era o último ano da década de 1980.

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