Para uma menina de onze anos nada poderia ser melhor que umas férias como aquelas: os adultos bêbados praticamente em tempo integral e por isso pouco preocupados com as crianças, um monte de primos dispostos a todo tipo de bagunça, poder ficar acordada até tarde e pegar o quanto de chocolate quisesse para anotar no caderninho da mercearia (ainda era um tempo em que se comprava fiado na mercearia e anotava em um caderninho). Pouco importava a casa não ter chuveiro, as camas com os estrados quebrados ou os vários dias de chuva. Chovia e a gente mesmo assim ia para a praia, caminhando vários quilômetros com meu primo à frente dançando e cantando: “Beira-mar auê, beira-mar, beira-mar auê, beira-mar”.
Naqueles dias, aconteceu de tudo. Meu irmão trouxe para a casa um siri que havia encontrado na praia, queria transformá-lo em bicho de estimação. Obviamente o bichinho morreu poucas horas depois e foi enterrado no quintal com direito às honras funerárias improvisadas pelo primo debochado que cantava, rezava e dançava em homenagem ao defunto.
Teve também a promessa da minha prima. Haveria um carnaval à noite na avenida principal e queríamos muito ir. Os adultos não demonstraram o menor ânimo para nos levar. Diante da falta de boa vontade dos adultos, minha priminha, que devia ter uns nove anos, resolveu apelar para a vontade divina. Lembro com muita nitidez, ela sentada na cama, a cabeça levantada e as mãos postas:
- Ô Deus, por favor, eu prometo que, se a gente for pro Carnaval, amanhã eu passo o dia inteiro sem comer milho, sem beber refrigerante e sem tomar picolé... ah! E não vou comer arroz também.
Ela não gostava muito de arroz e acho que imaginou que, com tanto sacrifício prometido, poderia por conta própria incluir um pequeno benefício.
Quando chegou a noite, os adultos nos levaram ao carnaval. A praia estava cheia de gente, tinha trio elétrico e nós pulamos e dançamos ao som de Kaoma e Beto Barbosa.
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