REMINISCENCIAS2

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Antes do começo



Fui criança de apartamento. Não tenho histórias de nadar em rio, de subir em árvores, nem de correr pela rua com a molecada do bairro. As memórias de infância são fragmentos descontínuos e desinteressantes.
Feito esse instante breve e prosaico que passa despercebido no tempo e no espaço. Mas eis que faz vir à tona o desejo de congelar o calendário. É uma tarde remota e quatro crianças jogam bingo no apartamento da tia que também é mãe e irmã. “Canta a pedra, Felipe!”, a mais velha ordena. O mais pirralho de todos, resoluto e ao mesmo tempo confuso, sem entender por completo as regras do jogo, tira uma a uma as pedras da sacola enquanto canta: “Todos corajosos sim, os famosos mosqueteiros...” Depois tudo se esvaiu, pulverizou virou fumaça. No entanto, o youtube resgatou a música do em sua integridade: “Dartagnan, Dartagnan é um valente e forte/ Dartagnan, Dartagnan a enfrentar a morte/Dartagnan, Dartagnan sempre  em defesa do mais fraco e oprimido”. Que esse instante, e apenas ele, seja retido. O resto pode ser tragado pelo turbilhão do tempo.

*Não gosto de discordar do velho barbudo alemão, mas acho que nem toda repetição é farsa ou tragédia. Algumas vezes, ela pode até ser poética. O Felipe dessa história já chegou aos trinta anos, mas há um novinho em folha que está a caminho. Meses atrás, ao me lembrar desse episódio cheia de nostalgia, sequer poderia suspeitar que muito em breve, haveria em minha casa uma reprodução às avessas da história de Dumas. Dartagnan aqui é o mais velho, o que chegou antes. Se o turbilhão do tempo levou embora o instante, ainda pode vigorar o “um por todos e todos por um”.

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